Hoje eu cometi um pecado capital

>> quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Isso mesmo. Sabe o qual? INVEJA.
Bom, todo mundo sabe o que é esse sentimento não sabe?
Alguns dizem que existe inveja branca, aquela em que você não deseja o mal do outro, apenas gostaria de ser igual a ele.
Pois bem, então foi essa inveja que eu senti ao ler o texto que vou mostrar pra vocês.
Pensei assim: Por que não fui eu a escrever? Eu queria ter escrito isso aos meus filhos. 
Mas o fato é que eu me emocionei muito ao ler, e hoje, reescrevendo aqui, e relendo ao mesmo tempo, eu quase chorei.
Então quero oferecer esse post de hoje aos meus filhos e gostaria que eles, caso leiam, ou quando lerem, trocassem (mentalmente) os nomes que vão aparecer - Paulo e Pedro - por Felipe e Ivan, e saibam que eu desejo, de coração, tudo isso para vocês, para suas vidas.
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Aos meus filhos, as estrelas
   
  "Talvez por ter chegado aos 50 anos, esse outonozinho da alma de dias quentes e noites frias, muitas coisas dão sinais de ter clareado na minha cabeça irrequieta. Gostaria que meus filhos soubessem disso. Soubessem que, tão logo nasceram, se tornaram o sentido, a prioridade absoluta e a principal fonte de alegria de minha vida. Queria que perdoassem meus tropeços, incertezas e imprevidência. E que aceitassem meus desejos e votos a seguir como um presente singelo que, sem saber, vim fabricando até aqui a cada um de meus dias.
     Entre tantas outras coisas que, como pai, lhes desejo, gostaria que Paulo e Pedro descobrissem que o infinito é uma palavra séria. Que certas estrelas ficam tão longe nos confins do Universo que, no momento em que as vemos, a luz delas já se apagou há  muito, muito tempo. Muito além do que conseguimos enxergar, elas já morreram. Mas continuam e continuarão brilhando, céu afora, sabe-se lá por quantos milhões de anos ainda.
     Considerem, filhos, que nesse infindável vazio flutuante, nosso planetinha gira, banhado pelos raios do sol. E que nesse planetinha – e, por enquanto, ao que se saiba, apenas nele - a vida se entrelaça de bilhões de formas imagináveis. Como, talvez, em nenhum outro lugar de toda essa vastidão misteriosa que nos circunda.
     Nunca se esqueçam de que essa explosão da vida, a natureza, é tão fascinante quanto cruel. Pode ser a paisagem irretocável que nos comove – e também a fúria que, num piscar de olhos, a devasta. São os filhotes com sua doçura cativante e frágil – mas também criaturas que devoram implacavelmente umas às outras. Na natureza, a curto, médio ou longo prazos, depende, toda forma de existência vive ao relento. Feito as estrelas, estão condenadas a um dia deixar de brilhar. Tudo passa. Tudo precisa passar. Não tem jeito. É assim.
     Que essa aparente fatalidade, filhos, não os assuste. Ao contrário. Tomara que ela os faça perceber o quanto nós, seres humanos, somos privilegiados. Por podermos  contemplar a criação e a evolução sentados num camarote. Por estarmos no topo de uma cadeia alimentar, uma vantagem que, na pior das hipótesese na imensa maioria dos casos, nos poupa da condição de presas.
     Em compensação, somos os piores predadores de nós mesmos. Mas desfrutamos a benção de, bem ou mal, compreender o mundo que nos cerca. E a de, mesmo que aos trancos e barrancos, evoluir. Um dia tenho certeza de que vocês perceberão quanta grandeza e quanta miséria resultam dessa nossa supremacia biológica. Nada disso, porém, nos desvia do nosso próprio destino. Um dia, como tudo, feito uma bandeirinha que o vento faz desprender de seu mastro, também nós passaremos.
Alegrias extremas. As dores mais lancinantes.
Agradeçam o que o destino lhes reservar.
Os bons momentos alegram a alma.
Os ruins ajudam a lapidá-la


     Espero que, sempre que se defrontarem com essa verdade, vocês sigam em frente. Tenham em mente que, cedo ou tarde, o tempo dissipa até a mais entranhada tristeza. Por isso, filhos, não se entreguem jamais à amargura. Como tudo, a dor que os colher também passará. Portanto, não percam com ela mais do que o tempo estritamente necessário. Invistam sempre mais na esperança que na desilusão. Mais na confiança que no temor. E, seja lá como for, perseverem em seus caminhos.
     Aliás, filhos, a cada oportunidade que tiverem, agradeçam. A cada manhã que despertarem, pensem no fato de que todas as suas moléculas permanecem agrupadas. Que as células de seus corpos continuam funcionando como devem. Agradeçam, rapazes. Brindem por esse milagre cotidiano. Cada dia é uma dádiva – e saber vivê-lo sem lentidão nem pressa é uma arte valiosa.
     Paulo. Pedro. Haja o que houver, lembrem-se de que carregam nas veias o mesmo sangue. Não permitam que a vida, com suas mesquinharias, atribulações e voracidade, os afaste. Nunca, Paulo. Nunca, Pedro. Poucas coisas conseguem ser tão profundas quanto o amor de um irmão. Ombro algum é mais amigo. Mantenham, em seus corações, um lugar reservado para o outro. Descubram-se, amparem-se e fortifiquem-se reciprocamente.
     Sejam previdentes, mas não deixem de realizar os seus sonhos. E nunca se considerem imunes a nada. Tudo, absolutamente tudo nesta vida é possível. Alegrias extremas. As dores mais lancinantes. Agradeçam aquilo que o destino lhes reservar. Os bons momentos alegram a alma. Os ruins ajudam a lapidá-la. Ambos um dia acabam ficando para trás e cada qual traz as próprias lições. Persigam sempre o discernimento. É ele que lhes permitirá essa fotossíntese renovadora que transforma lágrimas em risos. E em luz a obscuridade.
     Meus amados: vivam atentos ao que dizem o coração. Ele conhece os caminhos, mesmo que desconheça o destino. Bebam do riozinho de suas vidas sem medo. Como tudo, montanhas, impérios, nosso planeta, suas águas um dia também passarão. Mas o que importa é que, agora, nesse momento, elas correm bem diante de seus olhos abertos. São suas. Estão ali para que vocês, todo santo dia, possam saciar a sede. Bebam da existência, meus filhos. E, sempre que a barra da vida pesar, lembrem-se, por favor, das estrelas que já se apagaram. 
Reparem como elas ainda brilham no céu."


José Ruy Gandra - autor de Coração de Pai-Histórias sobre a Arte de Criar Filhos
beijos

18 comentários:

Celina Dutra 3 de agosto de 2011 04:18  

Macá,

Bom dia!

Filhos... como eu gostaria de viver as coisas ruins que eles passam na vida em seu lugar. Filho nasceu só pra ser feliz. Girassóis na vida de seus filhos.

Girassóis nos seus dias.
Beijos

Maria Luiza 3 de agosto de 2011 05:24  

Incontestávelmente lindo esse texto que vc nos permitiu ler e como você, cometer esse pecado, pois eu sou assim, quando leio algo tão profundo. Meu grande abraço!

✿ chica 3 de agosto de 2011 07:32  

Um lindo e grande achado.Emocionante! beijos,chica

Reg 3 de agosto de 2011 08:32  

Oi Ma, achei muito lindo esse texto que por um lado me enche de lagrimas por nao poder ter tido filhos e dizer isso a eles e por outro tb sinto inveja por nao ter a capacidade de escrever coisas tao tocantes na alma. Mas como eu te conheco bem vc diz aos meninos as mesmas coisas so que com atos!! beijos com saudades.

Deia 3 de agosto de 2011 13:54  

Agora somos duas com lagrimas nos olhos! Lindo, obrigada por compartilhar! Beijos, Dei

Luci Cardinelli 3 de agosto de 2011 14:11  

Lindooo!! Deu vontade de ler o livro :) Obrigada por partilhar.

beijosss

Telma Maciel 3 de agosto de 2011 14:25  

Que lindo texto... Tô com a Luci: queria ler o livro! Emocionante e tbm me deixou com lágrimas nos olhos. Pensei nos meus tios, nos meus irmãos e na minha filha. Uma cadeia tão linda que é a família! Lindo, lindo!
Beijos

Lúcia Soares 3 de agosto de 2011 14:56  

Macá, um texto lindo e verdadeiro.
Os filhos são a razão da nossa existência, podemos lhes dar o qeu for, materialmente, mas a eles cabe lutar por si sós e seguir o caminho.
Importante, nessa caminhada, é realmente valorizar a família, os laços de sangue.
Brilhar ou não depende só de nós.
Beijo!

Palavras Vagabundas 3 de agosto de 2011 15:00  

Troca por Fernanda e Helena...também queria ter escrito!
bjs
Jussara

Julio 3 de agosto de 2011 15:38  

Não gostei muito, não. Não ligo muito pra esse negócio de filhos. Tenho dois, mas nem lembro...hahaha.
Hoje estou como aquele cara: não bebo, não fumo, não jogo.... às vezes eu minto um pouco.

Felipe Xavier 3 de agosto de 2011 17:53  

Eu sou um dos filhos e to aqui pela primeira vez comentando!!
Hoje tropecei aqui, não sei porque, acho que tinha algo me dizendo para passar por aqui... acertei!! hehehe...
Por vários motivos hj estou num dia ruim, dia de querer um colo e receber um texto desse, num dia como esse, é como uma mensagem de DEUS dizendo que vai ficar tudo bem.. na verdade, uma mensagem de MÃE!! Amo você.. tenha certeza disso!!

JOANA CAMPOS 3 de agosto de 2011 22:33  

Nossa eu tbém vou guardar e repassar aos meus filhos... rsrsrs

MAcá, eu vim sim o tutorial da Elaine, vejo sempre...ela costumizou o meu bloguito... mas o que acontece que que não parece pra mim a opção que ela ensinou... aff

Mas de qualquer forma, obrigada de coração viu?

Beijos

Cantinho She 3 de agosto de 2011 22:57  

Uau! Oi Macá, que coisa linda, se um dia eu tiver filhos tb vou querer que eles leiam... Lindo e verdadeiro demais! Amei! Adorei o seu comentário em meu Cantinho, que bom que curtiu o post! ;) Beijo, beijoooo

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez 4 de agosto de 2011 11:40  

eu não tenho filhos mas tb senti inveja rs. que TEXTO!
Macá, adoro seus posts, por este tipo de conteúdo classe A que vc sempre traz.

bom dia!

Glorinha L de Lion 4 de agosto de 2011 19:56  

Lindo, Macá e emocionante de verdade, beijos,

Luma Rosa 7 de agosto de 2011 03:07  

Logo reconheci o texto e é simplesmente maravilhoso, como todos os textos do José Ruy. Ele, uma pessoa fantástica! Amigo de longa data! Bom Domingo! Beijus,

pensandoemfamilia 8 de agosto de 2011 12:52  

Oi Macá
Passei para avisar que amnhã 09/08 vou fazer o post final com seu relato.

bjs

José Ruy Gandra 4 de setembro de 2011 00:38  

Queridos Macá e amigos. Fico muito feliz e honrado com essas palavras tão gentis. Espero que alguns de vocês possam se tornar meus leitores. Obrigado e grande abraço a todos.
José Ruy Gandra

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